sábado, 27 de julho de 2013

São Paulo, Aconchego Carioca: Cervejas, bolinhos e felicidade


Bolinho de feijoada

O Rio de Janeiro é reconhecido e respeitado nacionalmente pela excelência dos seus botequins. Destacar-se num mercado com qualidade tão elevada não é para qualquer um. Fenômeno de público e crítica, o Aconchego Carioca aterrisou em terras paulistanas em Outubro de 2012 pelas mãos do beer sommelier e ex-sócio do Melograno, Edu Passarelli. Localizado estrategicamente na região da Paulista, com metrô pertinho, chegou para reforçar a linha de ótimos bares da região, muito disputados para happy-hour. Como atrativo, ótimos bolinhos e uma carta de cervejas com quase 300 rótulos, alguns raros e exclusivos.

O ambiente faz uma homenagem aos tradicionais botequins cariocas. A primeira coisa que chama a atenção quando entramos no salão são as paredes de tijolos à mostra ricamente ornamentadas com garrafas vazias e placas com marcas de cervejas do mundo todo, muitas das quais clássicas. Completam a atmosfera as redes no teto e o bom samba de música ambiente, em volume que não interfere nas conversas, que convidam a afrouxar a gravata e começar a “volta ao mundo em 300 cervejas” com o ótimo chopp Bamberg, acompanhado por uma das mais de 10 porções de petiscos da casa.

O atendimento mostra-se esforçado, os garçons correm o tempo todo, mas escorregam em pontos-chave. Na primeira visita do blog, nossos petiscos levaram quase 1 hora para chegarem à mesa. Ao questionarmos o garçom do porque outras mesas que chegaram bem depois já estavam comendo, recebemos uma das respostas mais sinceras que já ouvi até hoje: “pedimos desculpas, por engano servimos seus bolinhos para outra mesa”. Obrigado pela sinceridade, mas custava ter avisado antes?


Salão térreo

Aliás, nas três visitas que o blog fez ao Aconchego, em duas “engano” mostrou-se uma carasterística da casa que precisa ser eliminada urgentemente. Perdi as contas de quantas vezes ouvi, em mesas ao lado da nossa, garçons dizendo “pedimos desculpas, mas estes bolinhos não são os que vocês pediram” e “pedimos desculpas, mas entregamos por engano os bolinhos de vocês em outra mesa”. Pessoal do Aconchego, atenção!

Antes de falarmos das cervejas, vamos falar dos bolinhos. Como a lista de opções é grande, dedicamos 2 visitas para provar a maior quantidade possível de petiscos da casa. E não saímos arrependidos.

O carro-chefe, que elevou a casa da proprietária Kátia Barbosa à posição de referência em terras cariocas, é o bolinho de feijoada (R$ 21, 4 unidades), que leva massa de feijão preto, couve, bacon e acompanha torresmos bem sequinhos e batidinha de limão. Fritura sequinha, bem recheado e com sabores marcantes, o bolinho revela a cada mordida porque é um dos petiscos mais famosos do Brasil. Para aqueles que acharem a textura um pouquinho seca, é só colocar umas gotinhas da pimenta da casa para realçar os sabores e torná-lo uma viagem inesquecível.

Outro acerto certeiro da casa é o “Deixa Arder” (R$ 23, 6 unidades), composto por uma pimenta dedo-de-moça inteira, empanada e frita, recheada com carne seca desfiada e requeijão, acompanhada por vinagrete. A queimação inicial virá acompanhada pelo sabor marcante da carne seca e pela presença suave do requeijão, que juntos formam uma explosão de sabores na boca. Sério, o negócio é sensacional.

Mas o meu preferido de todos sempre será o bolinho de feijão branco com rabada (R$ 23, 6 unidades), com fritura perfeita (aliás, uma marca da casa, todos os bolinhos são crocantes, leves e sequinhos) e recheio tenro e bem temperado, lembra carne de panela.



O bolinho de "batata baroa" (a nossa mandioquinha) com camarão (R$ 23, 6 unidades) leva o crustáceo inteiro, o que faz toda a diferença na mordida: você sentirá o sabor adocicado da mandioquinha (que no RJ chama-se batata baroa), o gosto suave do camarão, e o interessante é que os sabores não se misturam, convivem harmoniosamente na boca, bem separados e nítidos. Dá para comer uns 200.



O Croquete de Carne (R$ 25, 10 unidades) tem sabor suave e fica ainda melhor com umas gotinhas da pimenta da casa. Crocante por fora e macio por dentro, feito com carne moída, sem dúvida é bem feito, mas não é um petisco surpreendente, inesquecível.



O blog também provou o "Jiló do Claude" (R$ 24), um negócio que pode parecer estranho demais para os paladares paulistanos, mas que agrada pela mistura de sabores: rodelinhas de jiló fritas, vinagre balsâmico reduzido com mel (o que elimina o amargor do jiló), queijo de cabra (mega macio) e pimenta rosa, que chega à mesa com algumas rodelas de pães, para comer como se fosse canapé. A combinação do jiló, do molho e do queijo mostram bastante complexidade da boca. Dentro de tantas opções carnívoras, é uma ótima opção "vegan friendly"para petiscar.



A casa possui uma linha de caldinhos, ideiais para abrir a refeição e esquentar nos dias frios. A versão de feijão branco com frutos do mar (R$ 12) leva feijões, lula, mexilhão e camarões. É bem temperado, aconchegante, embora talvez agradasse mais se o feijão fosse batido, como um creme, ao invés de inteiro.



Para fechar a linha de petiscos, o blog provou o pastel de carne-seca com requeijão (R$ 25, 10 unidades), de massa incrivelmente crocante e leve, mas que no dia da visita tinha recheio salgado demais, e o bolinho de grão-de-bico com bacalhau (R$ 28, 12 unidades), que foi uma decepção – grão-de-bico em excesso escondeu o sabor do bacalhau, que aliás apareceu em pequena quantidade.


Pastel de carne-seca com requeijão

Na terceira visita, deixamos de lado os petiscos e resolvemos provar os menus executivos servidos de terça à sexta na hora do almoço, com entrada + prato + sobremesa por R$ 32,90, um baita negócio em se tratando da região da Avenida Paulista, onde comer é extremamente caro. A comida é muito bem servida, suficiente para não sair com fome. O menu servido no dia da visita, uma sexta-feira, tinha uma salada de abobrinha marinada, ervilha torta, rúcula e castanha do Pará como entrada, arroz de crustáceos como prato principal e brigadeiro de colher de sobremesa.


Salada (quantidade bem servida - na foto acima, o prato já estava pela metade)


Arroz de crustáceos

Nossas opiniões sobre a comida: a salada é espetacular, provavelmente a melhor parte da refeição, a abobrinha marinada merece juras eternas de amor pela mistura de sabores adocicado e azedinho, certamente eleva o nível da refeição. O “arroz de crustáceos” nada mais é que um arroz com carne de siri com 3 camarões, que chegou à mesa seco, com excesso de sal e decepcionou completamente. O desempate ficou para a sobremesa, um brigadeiro de colher denso, macio, amargo, que beira o inesquecível.


Brigadeiro de colher

O cardápio completo de almoço da casa pode ser consultado aqui:



Ainda na linha das sobremesas, os palitinhos de queijo coalho com goiabada cascão formam uma versão moderna do clássico "Romeu e Julieta". O queijo não é salgado, a goiabada é super macia e pouco doce (o que destaca o sabor marcante da fruta), a combinação agrada e surpreende a cada mordida. Vale a pena.



A carta de cervejas do Aconchego Carioca mostra identidade e brilho próprios, com ótima seleção de rótulos escolhidos a dedo para harmonizar com os petiscos e pratos da casa, que em conjunto com a ótima relação custo/benefício colocam, na opinião deste blog, a carta do Aconchego entre as 3 melhores de São Paulo. O Brasil domina a carta, com mais de 50 rótulos garimpados em pequenas cervejarias, assim como uma boa seleção de belgas e ingleses, com opções pouco conhecidas do público brasileiro e até alguns rótulos que só são encontrados nas geladeiras do Aconchego.

O resultado do árduo trabalho de um dos maiores especialistas em cerveja do país agrada em cheio os paladares mais exigentes e os conhecedores da bebida, explorando bem os diferentes tipos de cervejas. Na opinião deste blog, a carta poderia ter mais opções de Red Ale e IPA, em pequena quantidade na carta.


Aconchego e suas lindas geladeiras

Para começar a degustação, pedimos a Coruja Cerveja Viva (R$ 29,50), na opinião deste blog a melhor artesanal brasileira. Cerveja artesanal tipo Pilsen, não-pasteurizada, 4,5% ABV e com 3 vezes mais malte que as cervejas comuns, coloração âmbar, espuma clara, densa, volumosa e duradoura. O aroma e sabor são extremamente maltados, lembrando banana, pão, mel, caramelo e cereais. Muito refrescante e saborosa.

Em seguida, fomos brincar um pouco no cardápio das Red Ale's. Pedimos a redonda Murphy’s Irish Red (R$ 14), uma autêntica irlandesa de alta fermentação com cor avermelhada, malte tostado, 5% ABV, espuma espessa, sabor encorpado e amargor típico das Red Ale inglesas. Como é distribuída pela Heineken, pode ser facilmente encontrada nas prateleiras de supermercados como Pão de Açucar e Mambo.


"Deixa Arder", Spitfire e bolinho de grão-de-bico com bacalhau

A terceira cerveja que escolhemos foi a clássica e refrescante Spitfire Kentish Ale (R$ 26), produzida pela cervejaria Shepherd Neame, simplesmente a mais antiga do Reino Unido. Lançada em 1990 para homenagear o Supermarine Spitfire, um dos símbolos da resistência britânica na segunda guerra mundial, e lembrar os 50 anos da batalha que ocorreu entre a Luftwaffe (força aérea alemã) e a Royal Air Force (força aérea britânica) sobre a cidade de Kent. Tida como a mais clássica e tradicional Ale inglesa, com 4,5% ABV, tem espuma leve, maltes caramelizados, aroma floral e final frutado com leve amargor. Ótimo drinkability, fácil de beber, dá para tomar várias.

As cervejas são tratadas com carinho de estrela principal, e uma amostra disso é a próxima cerveja da lista, uma velha conhecida: a Cooper’s Extra Strong Vintage Ale (R$ 22), minha Ale preferida. Esta australiana de 7,5% ABV passa por uma longa fermentação em barris de carvalho, sem falar da segunda fermentação em garrafa, o que lhe confere corpo e uma complexidade de aromas e sabores. Sem dúvida uma “cerveja de guarda”, para quem realmente é apaixonado por Ale.


St. Feuillien Saison (esq) e Struise Pannepot 2011 (dir)

Entrando no maravilhoso mundo das cervejas belgas, começamos o tour com a St. Feuillien Saison (R$ 22), tida como a melhor Saison do mundo. Nota 96 pontos na ratebeer.com, uma belga leve e refrescante com 6,5% ABV, espuma generosa, fácil de beber, aroma de cereais e notas frutadas cítricas na boca e um leve amargor no final que lembra as clássicas trapistas. Uma baita cerveja.

A sexta cerveja da degustação foi uma clássica Belgian Strong Dark Ale. Pedimos a La Trappe Quadrupel (R$ 56), de longe minha belga favorita, mas que infelizmente estava em falta no dia. O garçom sugeriu uma Chimay Grande Reserve (R$ 54), não pasteurizada e refermentada na própria garrafa, também com sabor forte do malte torrado, aroma floral e notas frutadas, carasterísticas das trapistas belgas escuras, mas com amargor um pouco mais acentuado do que a La Trappe. Chegou à mesa com temperatura mais baixa que o recomendado (entre 8 e 12 graus), o que interfere na degustação e altera a percepção dos sabores (sim, a temperatura na cerveja é tão importante quanto no vinho), mas nada que 10 minutos na mesa não tenham resolvido.

Para fechamos a primeira parte da degustação com chave de ouro, pedimos a excepcional Duchesse de Bourgogne (R$ 25), uma Flandres Red Ale com dupla fermentação e envelhecida em barricas de carvalho por 18 meses, considerada a cerveja com notas mais vinificas no mundo, com forte presença de frutas vermelhas no aroma e paladar. Já falamos sobre ela aqui no blog, lá no post do The Burger Map.



O Aconchego fechou recentemente uma parceria com a importadora Hors Concours para oferecer uma seleção de 21 rótulos raros de pequenos produtores belgas, nos estilos  saison, lambic e strong dark ale, muitos premiados em concursos internacionais. Sem dúvida uma baita oportunidade para que os verdadeiros apreciadores conheçam o que existe de melhor em matéria de cervejas especiais. Nem preciso dizer que tanta exclusividade tem seu preço: uma garrafa aqui pode chegar facilmente aos 3 dígitos.

Para saber mais da carta de "cervejas top" do Aconchego, acesse o ótimo link do blog “Sem Medida” - http://semmedida.com/vi-por-ai/hors-concours-nova-cervejaria-traz-rotulos-unicos/.

Tivemos a oportunidade de provar 4 cervejas do carta de cervejas "Hors Concours". Seguindo a recomendação do Edu Passarelli, pedimos a Struise Pannepot 2011 (R$ 36), a “Ale do Velho Pescador” tem nota 100 no ratebeer.com, ocupando hoje o sétimo lugar entre as melhores cervejas belgas do site, o que não é pouca coisa. 10% ABV, é escura, quase um café, densa e consistente, perfume de chocolate, café e frutas secas, encorpada e complexa na boca com sabor doce de caramelo com um tostado bem leve e equilibrado. Provavelmente foi a melhor cerveja da degustação.



A segunda cerveja da "carta top" (e nona no geral) foi a Struise Motuecha (R$ 27), uma Blond Belgian Ale do Flandres, região flamenca no norte Bélgica, e que usa lúpulo da Nova Zelândia. Tem com 5% ABV, Uma das poucas que não surpreendeu, tem amargor acentuado (lembra uma clássica lager européia) na boca, no nariz tem notas críticas, como um Sauvignon Blanc.

A décima cerveja foi a desejada Sint Amatus 12 (R$ 58), da cervejaria Struise Brouwers, envelhecida em barris de vinho, calvados e whisky, 99 pontos na ratebeer.com. 10,5% ABV, esta quadrupel belga tem cor escura, pouca e densa espuma, no nariz e boca predominam o café, mas não faltam as notas de chocolate, as frutas secas, as uvas passas. Deve ser apreciada em diferentes temperaturas, degustada pausadamente, provavelmente após uma refeição.

Fechamos a degustação com a Harviestoun Ola Dubh 1991 (R$ 55) uma escocesa maturada em barricas de carvalho utilizadas para o whisky Highland Park Single Malt Vintage 1991. Série limitada com apenas 20 mil garrafas produzidas (as garrafas são numeradas), este petardo com 10,5% ABV adquiriu dos barris a doçura do toffee e notas de amêndoas torradas. Chocolate, café, melado, amêndoas, uísque, madeira, os sabores e aromas são marcantes e complexos. Outra que chegou à mesa mais fria do que o recomendado, e ao longo da refeição abriu-se, ganhou corpo e personalidade.

Endereço: Alameda Jaú, 1372 – Jardim Paulista
Telefone: +55 (11) 3062-8262
Horário de funcionamento: Terça a sábado das 12hs à meia-noite, domingo das 12hs às 18hs.
Internet: www.aconchegosp.com.br

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